segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Ferrugem me ancorou à terra.  A liberdade dos mares é para os peixes.  Pela terra me arrasto pesado, um fóssil de priscas eras.  Trago pedras na barriga e morte no sorriso.  Que o homem me tema, que me mate, que se queixe.  Ri melhor quem, com mandíbula de pedra, mastiga dinheiro, vidas e pertences.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Minhas convicções eram firmes como pedra e sobre elas me assentei. Quando ruiram, ruí com elas.  Tempos depois, na escuridão do abismo recompus-me pedra, gota a gota.  Mas durante a longa queda foi que percebi: pedra, carne e pena caem sob a ação da mesma força. Mas ao tocar o solo só a pluma permanece intacta. Quem dera tivesse mirado o céu, não a terra.

domingo, 24 de agosto de 2014

Às vezes penso me mover.  Por todos passo confiante, sem olhar para trás.  Conto cada passo, com a certeza da importância desse feito: se não lembrar desses números, quem os lembrará?  A medida de meu progresso diminui à medida que os meço: os passos de calam, sobram os calos.  Então a ilusão termina e tudo é igual a antes.  Nunca me movi, passaram por mim.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Encrustradas em pedra, memórias são eternas. Os traços não se apagam, antes nos apegam. O planeta e os ponteiros dão voltas e voltas e voltas mais veloz que a luz. Fora de todo tempo, um momento desenhado, idealizado como tudo que é bom. Em minha carne te levarei ao cerne da terra até que não haja mais luz e olhos para ser lida.

domingo, 13 de julho de 2014

De quantos castelos fiz parte? Quantos ruiram por terra antes que qualquer ai se ouvisse? Faltam pontes e sobram travessias nesse mundo inundado. Não sirvo pra telha e as fundações se desmancham. Quando caio em mim, não ouço eco.

terça-feira, 8 de julho de 2014

São duras as penas e as pedras. Precisam ser ou não mudariam o curso das águas e dos ventos. São o necessário imposto para transitar pela larga vida, pago por todos. Sofro de desmesurado ódio alheio de quem em mim vê mero obstáculo e não o próprio instrumento que viabiliza dito trânsito. Minha própria pena, com a qual escrevo rodovias para outros. Minha própria via não roda: rodopia no ar, qual pena ao sabor do vento... leve o vento me leva e nem me lembro da dureza.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Os dias correm ligeiros por estradas de paralelepípedos. Não se estendem, não se atrasam. Por que tanta pressa? O que se esconde atrás da linha do horizonte? Curiosidade mórbida de quem, fixo ao solo, vê claro céu azul findar-se sempre no mesmo fio vermelho.  Bordada na vista, retida na retina, a presa da pressa é engolida pela escuridão. Fosse eu dia, ser pedra almejaria.